terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Estranged

Leia esse texto ouvindo esta música:

Escrever é sempre recomeçar. Existem os mais diversos tipos de recomeços. O que quero falar aqui é aquele que você pensa todos os dias. Aquele que você sabe que é preciso fazer desde quando você - eu, no caso - ainda tinha cabelo. Mas que mesmo assim você não consegue, seja por uma relação de existência entre você e a vontade de mudar, seja pela real impossibilidade de conseguir naquele momento. William Forrester diz que a primeira versão de nosso texto nós fazemos com o coração, e a segunda, com a nossa cabeça. Como então recomeçar algo que já está tão tetricamente formulado dentro de sua mente? Quantas vezes falhamos em fazer coisas óbvias aos nossos olhos?

Recomeçar obriga a ser diferente. Se formos iguais não existe recomeço. Recomeçar implica a colocar o pé pra fora da rota já tão pisada e, por isso mesmo, confortável, por ter exatamente o nosso formato, como um travesseiro velho. Mas o recomeço se sedimenta justamente no que conhecemos, no nosso passado. Temos que recomeçar de algum lugar, temos que tentar ser melhores (?) a partir de alguma base. Não adianta começar do zero, ninguém começa do zero. Não há sentido nisso.

Então a relação entre recomeçar e nosso passado já começa intrincada. Temos de usar algo que vivemos como base para sermos diferentes. Paradoxal. Começar a partir do vivido e acostumado. Não vivemos sozinhos, precisamos de espelhos diferentes de nós para ratificarmos ou reprovarmos nossas mudanças, mesmo que a nota final seja dada por nós mesmos.

Velhos de espírito, ranzinzas, populares, sábios, curiosos, intolerantes. Castas mentais não importam. Nosso sentimento frente ao recomeço é uma espécie de nostalgia ao contrário, e demoramos a entender o porquê disto. Justamente pelo passado que carregamos nas nossas costas. Recomeçar é REfazer. Não apenas "fazer".

Mark Twain disse que o homem é o único animal que cora, ou que faz corar. Quando alguém diz que vivemos do passado, de forma pejorativa, soa ridículo. Todos, inexoravelmente todos nós vivemos do passado. Se essa frase soa chocante, é bom pensar nela com calma.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Portas.

Estava de mudança. Tinha conseguido comprar a casa que sempre quisera durante sua infância. Passou anos e anos passando na frente daquela casa todos os dias, indo para os mais diversos lugares, e o mundo sempre parecia que parava quando ele entrava em seu campo de visão. Finalmente a havia adquirido. Agora restava apenas uma parte da mudança. Mãe e pai mortos, mulher divorciada. Ele fazia a mudança sozinho. Cinco ou seis viagens por dia, colocando tudo que ele julgava de valor dentro do seu carro, e levava para a casa nova. Esse operação já durava alguns dias. Estava terminando. Era a última viagem. Chegou na frente da casa e ficou admirando as duas árvores que ficavam na frente, que ele mesmo havia plantado. Davam flores amarelas lindas, mas nunca deram frutos. Pouco importava. Em determinada época do ano a rua ficava parecendo um mar amarelo tênue, com as pequenas flores voando ao sabor do vento.

Abriu o velho portão de ferro, subiu o lance de escadas e abriu a porta. Havia uma poltrona, alguns retratos em cima da prateleira, duas caixas perto da escada que dava para o segundo andar, e poeira, muita poeira. Algumas teias de aranha se amontoavam perto dos porta-retratos. Ele sentou-se na poltrona e começou a olhar a casa, começou a ver o lance de escadas como era há vários anos, quando todos subiam correndo para ver quem chegava mais rápido no banheiro, pra tomar banho logo. Olhou para o térreo, e lembrou da mesa de jantar cheia, e de como ele sempre conseguia disfarçar e limpar a boca suja de molho de tomate na própria toalha de mesa, seguro de que ninguém estava vendo. Aos poucos, esse sentimento de fazer tudo escondido foi substituído por indiferença de todas as partes.

Olhou para o corredor e viu a porta do porão, onde os pequenos tinham medo de chegar perto. Nunca entendeu a revolta dos filmes americanos com o porão. Por causa dele os pequenos nunca o ajudavam a limpar aquele lugar. Sempre perdia um domingo de folga varrendo e tirando as teias. Mais teias.

Olhou os porta-retratos, e se lembrou de como nunca gostou de fotografias. Como ele as enxergava não como um passado, mas como uma espécie de blefe. Um engodo que permanecia intocado por gerações, e de como aquilo o incomodava. Incomodava porque ele mesmo não conseguia fazer nada de diferente - e na opinião dele, nada de mais sincero - ao sair em fotos. Olhou para uma foto em especial, onde estava sentado, com um dos pequenos no colo. O pequeno olhava para o alto, fitando o seu rosto, enquanto ele fazia uma careta misturada com um sorriso. Um vento forte entra pela porta da frente, e varre algumas teias de aranha da foto. Era começo da tarde.

O vento não parou pelas próximas quatro horas seguintes. Quando o sol começou a adormecer, a rua ficou cheia de pessoas saindo de suas casas, a maioria para comprar o pão, ou para brincar com o mar amarelo, que começava a aparecer nas calçadas. Até os cachorros gostavam. Ele colocou a poltrona do lado de fora do terraço e ficou olhando a rua. Ficou a olhando de olhos fechados, vendo aquilo que queria ver. Até que o vento ficou forte demais e derrubou um dos porta-retratos no chão. Aquilo o fez levantar-se, colocar as fotos numa das caixas, olhar a casa pela última vez e fechar tudo.

Entrou no carro e partiu para seu sonho. Deixou sua vida para trás.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Escuridão de Luz.

Dentro de uma floresta. Escura, densa. Árvores de copas altas, com muitas folhas mortas no chão, que respira vida. A medida que se anda, os pés afundam um pouco, invadindo a camada de terra extremamente fértil e de folhas secas. Sem sinal de vida animal. Olhando pra cima você só consegue ver a copa das árvores. Nos raríssimos espaços descobertos, o cinza domina. Sua vida parece monocromática. Você só consegue andar pra frente, tentando achar algo ou alguém correndo por entre as árvores. Nada.

Aquele vento frio corta suas bochechas. O único barulho é o das folhas secas quebrando sob seus pés. O vento invade, as árvores começam a falar, a conversar entre si. Você se vê só. Sempre andando no mesmo sentido. Suas pernas começam a pesar, e afundam cada vez mais no chão pegajoso. De repente, raios de luz começam a aparecer de forma mais regular, mas não mais sobre sua cabeça, e sim na sua frente.

Você começa a tentar andar mais rápido, mas só faz cair, novamente vítima do chão movediço. Depois da euforia você encontra seu ritmo de caminhada novamente, e torna a seguir em direção dos raios. Parecem golpes de espada, longos e finos, invadindo a floresta e "cortando" seus braços. Aos poucos os raios começam a ficar mais largos, e são as árvores que vão perdendo espaço na sua perspectiva, ficando cada vez mais magras.

Não são mais raios, são placas enormes de luzes. Imensas, que puxam você pra fora. Você só vê luz. Engolindo sua respiração, seus braços. Num sopro, você se vira e olha para a floresta, que não é mais engolida pela luz. Seus braços, se esticados pra frente, não são vistos. A luz engoliu o cinza. Metade sua está na escuridão da luz. A outra, no cinzento da floresta.

Nesse momento, você fecha os olhos, e sente os dois. Sente a dualidade. É frio e quente. Só o vento passa pelos dois ambientes. O vento é livre.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Lama

A família era normal. Classe baixa, casal com mais de 25 anos de relacionamento informal e depois oficial. Os filhos também eram normais. Estudiosos num dia, preguiçosos no outro. Viviam num bairro perigoso da periferia do Recife. Tudo sempre parecia igual, repetitivo, como a batida de um relógio. Todos os dias o pai ia trabalhar, os filhos iam para a escola - pelo menos era isso que diziam - e a mãe ficava lavando roupa. A sua e a das vizinhas, para aumentar a renda. Nos fundos da casa havia um lamaçal fétido, borbulhante. Exalava um cheiro insuportável. Todos evitavam ir aos fundos da casa para não sentir os restos daquele cheiro que entravam com a a ajuda do vento.

Certo dia a família recebe a visita de Flávio, o advogado. Ele falava em nome de uma grande empresa que queria comprar todo o terreno para a posterior construção de um conjunto de empresariais. O engravatado foi oferecer uma proposta financeira para que a família saísse do local sem disputas judiciais. O pai prontamente ouviu e gostou da proposta. A mãe, idem. Os filhos não se opuseram, principalmente depois de ouvirem que, além da proposta financeira, iriam ganhar uma casa mobiliada, sem custos adicionais, e com esgoto tratado, em outro ponto da cidade.

Negócio fechado. Todos foram comemorar na pizzaria. Não era todo dia que aquilo acontecia. A mãe fez escova no cabelo. O pai fez a barba. A filha usou esmalte pela primeira vez, e o filho tomou banho sem reclamar. Todos prontos, iniciaram a comemoração atravessando a rua, que fica pouco antes de um viaduto, para pegar o ônibus e aí sim chegarem à pizzaria. Durante a travessia, planos para a decoração dos quartos, da sala, e um atropelamento. Um carro, em alta velocidade, atropela o pai e a mãe. Os filhos, que foram empurrados para trás, tiveram apenas arranhões.

A mãe ficou em coma por três anos. Três anos. O pai morreu na hora.

Quando abre os olhos, a mão está rodeada pelos filhos. O menino tirou definitivamente aquele bigode ralo, feio. A menina tirou o aparelho e estava com um lindo sorriso. A mãe sabe, neste instante, sobre seu marido. O pai, marido, morreu. O anônimo. Depois da saída do hospital, em meio à lágrimas, a mãe procura saber o que se passou na vida dos filhos durante esse tempo. Mas quando percebe o caminho que o taxi está tomando, nota que estão indo para o mesmo lugar. O mesmo de sempre, a beira do viaduto. Prédios altos. Imponentes. Mas o lugar ainda fede.

Quando a mãe chega, percebe que o primeiro andar do tecnológico e moderno empresarial é um apartamento residencial. O seu apartamento. Com duas varandas. Uma para a BR que matou o pai e decepou sua vida. A outra para a parte dos fundos, onde a estava a velha lama, que nunca saiu de lá. Os filhos pedira, durante a obra, para a mesma ficar lá. A lama lembrava o pai, que vivia reclamando com eles mesmos para alguém começar a limpar aquela imundice e ir reclamar na prefeitura.

Todos riem do estresse e nervosismo do pai para com a lama. A lama virou da família.
Acarreta lembranças muito boas.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Poder da Maior Invenção Humana: O Tempo

O tempo é a maior e mais complexa invenção do homem em toda sua história. E provavelmente nunca será superada. Nem mesmo a utopia da imortalidade conseguirá suplantá-lo. Em virtude de que o tempo engloba até mesmo o imortal. Ser imortal não significa ser atemporal. Nada escapa dessa invenção maior que o amor e que outros baluartes da civilização.

Sempre fui ligado ao passado. Sempre busquei reformar e estudar aquilo que vivi. Tentando, dentro da minha cabeça, fazer um passado diferente. Um passado que, pelo menos para mim, soasse melhor, me trouxesse mais tranquilidade, mais felicidade. Mas quase em todas oportunidades o efeito é exatamente o oposto.

Reconstruir o passado nos dá a oportunidade de ver como não tínhamos a menor capacidade de interpretar certas coisas no momento em que aconteceram, e que como nosso conceito de felicidade - sem dúvida a maior busca humana através do tempo - muda constantemente. Muda por que queremos sempre estar felizes, e para isso é necessária uma constante flexibilidade de sentimentos. Ser feliz não tem nada a ver com regularidade.

Sempre quis que o tempo me deixasse marcas mais visíveis e menos presentes que lembranças. Preferia cicatrizes, onde você pode escolher quando sentí-las, quando tocá-las. Nossas memórias nos comandam, nos levam a uma viagem que não queremos em muitos momentos e, por tabela, acabamos reinterpretando situações que estavam definidas dentro de nós mesmos.

Nada é definido no nosso passado. Ele é a maior representação da mudança.
Pensamos ter o maior controle sobre o passado, mas é o oposto. É ele quem decide quando aparecer, levando tudo pela frente. Destroçando o presente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Toque.

Olhar para os lados, nada ver.
Nada tocar. Abrir as mãos, procurar e nada sentir.
Os dedos cerram e abrem mais devagar, na esperança de sentir algo desapercebido.
Fecha-se os olhos, numa desesperada tentativa.

Numa mudança de estratégia, olha-se para cima. Estrelas.
Uma construção ilusória se faz de repente, e se coloca várias estrelas nas mãos.
Mas é difícil sentí-las. Não são palpáveis como se quer naquele momento.

O sentido mais palpável continua sendo a visão.
Enxergar o distante e poder pensar o que quiser dele nos dá a dádiva de formar nosso próprio mundo.
Amanhece o dia. Pessoas começam a percorrer as ruas. Arrumadas, indo trabalhar.

Você tenta calcular o valor das coisas, o valor do sentimento que teve.
Não consegue.
Você também tem que ir trabalhar. Entrar no oceano junto com os outros.
Você tenta ser diferente. Ser notado. Ser melhor.

Mas o ônibus vem e você tem que correr.
O mais palpável que você conseguiu, enfim, foi a janela do ônibus, onde outros sonhos são construídos. Com os olhos.